O texto que Renascence Ballet disponibiliza a seus visitantes nesta segunda serve de boa introdução para quem deseja deter sobre o "corpus" um olhar menos complacente e mais crítico, a fim de uma exploração mais rica das possibilidades contidas no "maquinário corporal" humano. A autora é Mestre pelo Instituto de Artes da Universidade de Campinas. Este e outros textos da autora podem ser vistos no portal Conexão Dança (www.conexaodanca.art.br).
Alguns Aspectos Relevantes sobre o estudo do Movimento para o Desenvolvimento Técnico, Expressivo e Criativo do Dançarino
Por Lucidélia Carpanedo Fiório
"O presente artigo é um recorte do trabalho de mestrado que investigou o corpo no espaço cênico. Analisando esta questão percebi que, primeiramente, deveria refletir e compreender alguns aspectos relevantes sobre o movimento para o desenvolvimento técnico, criativo e expressivo do dançarino. Durante estas reflexões ficou claro que, os conteúdos de anatomia, quando aplicados diretamente na prática ampliam as possibilidades da percepção da unidade corporal; quando refletimos sobre nossa expressividade e percebemos que nossas expressões estão sempre interligadas aos nossos movimentos facilitamos a compreensão de nossos movimentos dançantes; da mesma forma, quando nos deparamos com realidade de que para toda ação e reação existe uma determinada respiração, mais uma vez ampliamos nossas possibilidades de interpretar a nossa dança."
Organização e Coordenação motora: O corpo é formado por partes. Segundo Bertazzo (1996), o movimento é o fator decisivo que possibilita a união destas partes, criando a unidade corpo. "O movimento nada mais é que uma tensão conduzida de um músculo a outro, organizando alavancas ósseas e permitindo a sensação de um braço inteiro, de uma perna inteira, e finalmente de um corpo inteiro." (BERTAZZO, 1996 p.34).
Podemos concluir a partir da afirmação de Bertazzo que, o movimento é o meio pelo qual nos permitimos certificar da presença de nossos corpos no espaço, pois ele coordena toda a nossa estrutura. Verificamos que a organização do movimento é bastante complexa, indo muito além da interligação dos sistemas ósseo, articular, muscular e nervoso. Mesmo quando nos atemos a um recorte do movimento para estudá-lo, a inteireza corporal está sempre presente. Se uma determinada emoção tensiona em demasiado um músculo, este pode puxar um osso e tirá-lo de seu alinhamento, causando assim, um desequilíbrio ou um erro postural.
Fatores constitutivos dos movimentos, tais como, tensão, direção, equilíbrio e unidade são orientados pela coordenação motora. A coordenação motora dos movimentos dos dançarinos será alcançada na medida em que for praticada. Lembramos que, esta prática, requer também reflexões sobre sua psicomotricidade.
O corpo funciona como um todo, cada unidade de coordenação tem um movimento inseparável da coordenação vizinha. Quando realizamos um gesto com a mão, a tensão se estende para o braço, para o antebraço, que a expande para o ombro, para o tronco irradiando-se para o corpo inteiro. O fluxo do movimento permite a troca de informações entre estas partes, propiciando ao nosso corpo uma organização. Esta por sua vez mantém a postura necessária para a realização do gestual de nossa mão. Neste exemplo, podemos notar que, durante um movimento voluntário, um número enorme de ações musculares automáticas e semi-automáticas está acontecendo para que o corpo realize o referido gestual. A esta organização, chamamos de coordenação motora.
Os conteúdos de anatomia e fisiologia abordados, durante o desenvolvimento do trabalho diário em dança são ferramentas que ajudam na instrumentalização dos dançarinos. Entendemos que, nesta prática, esta abordagem nos auxilia, tanto no sentido de manter a integridade física, quanto de proporcionar o conhecimento das potencialidades, habilidades e qualidades expressivas que podem vir a desenvolver.
Na prática observamos que:
Quando estimulamos os dançarinos a observar atentamente seus ossos durante seus movimentos, estamos estimulando-os a descobrir, entre outras coisas, as direções de seus movimentos no espaço.
Quando os estimulamos a observar suas articulações durante seus movimentos, pedindo para que ampliem os espaços entre elas, estamos estimulando a melhorar sua postura, sem tensões.
Quando os estimulamos a perceber seus músculos durante seus movimentos, estamos estimulando a detectar que seus músculos refletem e expressam suas formas.
Por último, quando estimulamos os dançarinos a compreender o corpo como uma unidade durante seus movimentos, por meio da coordenação motora, estamos estimulando a compreender a tridimensionalidade de seus corpos e a relação deste com o espaço físico.
Todavia, é importante ressaltar que a dança expressa simultaneamente características objetivas e subjetivas do movimento; e que a abordagem separada destes conteúdos foi apenas uma questão didática.
Expressividade: A cada dia que passa, o ser humano se torna mais sedentário. De modo geral, seus movimentos são reduzidos e, conseqüentemente, ele se expressa cada vez menos por meio deles. Desde que nascemos, estamos, a todo o momento, aprendendo formas de como devemos nos relacionar com o próprio corpo e com o espaço que nos circunda.
Na medida em que somos submetidos às repetições de modelos de movimentos, somos levados a estabelecer um vocabulário. Se por um lado esse processo facilita nossa inserção no meio, por outro, a repetição de um vocabulário, sem nenhum tipo de reflexão, dificulta o processo de autoconhecimento e, conseqüentemente, dificulta nossa capacidade expressiva. Explicando este fato Klauss Vianna (2005) afirma que, por meio da memória robotizada, podemos reproduzir movimentos desse vocabulário a todo o instante, mas dificilmente podemos criar novos movimentos ricos em expressividade.
Descobrir-se e descobrir a expressividade do movimento exige observação e internalização até chegar à sua compreensão. À medida que repetimos atentamente nossos movimentos, surgem sensações que nos ajudam a elaborar e a entender sua expressividade. Klauss Vianna (2005) observa que ao longo desse processo é fundamental considerarmos que nos relacionamos com o mundo. Para ele, nossa relação com mundo é a verdadeira origem e motor do movimento e da própria dança, pois é a partir da dinâmica existente nesse relacionamento que emerge a singularidade, fazendo com que, cada pessoa seja um ser único e diferenciado.
Dançar é expressar por meio de movimentos e formas nossos mais íntimos desejos. "...é aventurar-se na grande viagem do movimento que é a vida." (VIANNA, 2005 p. 112). Por outro lado, para dançar é fundamental conhecer o próprio corpo. Klauss dizia que um corpo inteligente é um corpo que consegue adaptar-se aos mais diversos estímulos e necessidades, ao mesmo tempo em que não se prende a nenhuma receita ou fórmula preestabelecida, orientando-se pelas mais diferentes emoções e pela percepção consciente das sensações.
A descoberta da individualidade e, conseqüentemente, da criatividade e da expressividade é prioritária para quem deseja fazer da dança um meio de comunicação corporal. No entanto, para que se estabeleça a comunicação, é preciso estimular os dançarinos a romper e desbloquear suas tensões e emoções, deixando que a sensibilidade e a expressividade fluam por meio de seus movimentos.
A coreógrafa Lia Robatto elucida que essa consciência pode ser adquirida, quando percebemos o corpo como "depositário de toda a vivência espiritual, mental, afetiva, sensorial, etc." (ROBATTO, 1994 p.245). Considerando-se, os objetivos técnicos quantitativos e qualitativos a serem atingidos, pois só assim é que faremos do corpo a dança e da dança o próprio corpo dançante.
Respiração: Diariamente, vivemos situações que nos levam a confirmar que a respiração está intimamente ligada a toda mudança de sentimento ou antecipação de emoção forte. Cada estado emocional corresponde, portanto, a um tipo específico de respiração. Se estivermos agitados ou estressados, a respiração é superficial; dormindo tranqüilamente, a respiração é profunda; em estado equilibrado de vigília, a respiração tenderá a ser completa. "Não há dúvida de que a cada sentimento, a cada movimento do espírito, a cada alteração de afetividade humana corresponde uma respiração própria". (ARTAUD, 1999 p.152).
Para nos mantermos vivos é essencial que respiremos preenchendo nosso espaço corporal com o oxigênio, pois este é o gás que alimenta as células, gerando a energia necessária ao funcionamento de nosso metabolismo. A respiração é um ato vital, que, por sua vez, pode ser regida pelo sistema nervoso central autônomo ou ser controlada pela consciência, sendo um instrumento usado pelo homem para manter contato ininterrupto com o meio. "Uma boa respiração é essencial para uma saúde vibrante. Através da respiração, conseguimos o oxigênio para manter o fogo aceso de nosso metabolismo, e isto nos assegura a energia que precisamos, para estarmos vivos. Mais oxigênio cria um fogo mais quente e produz mais energia." (LOWEN, 1985 p 35).
Entendemos que os movimentos respiratórios são como os movimentos espiralados. Assim como os movimentos espiralados a respiração é um continuum, a todo o tempo estamos inspirando e expirando ar, alimentando e esvaziando nossos corpos, expressando nossas sensações, emoções, temores, lembranças, estados etc.
Como vimos, nossa respiração pode ser involuntária, inconsciente ou voluntária, consciente. Esta característica da respiração cria um elo entre os aspectos inconscientes e conscientes de nosso ser, pois, quando respiramos involuntariamente, preenchemos nossos espaços internos com o ar inspirado, mas, como geralmente não estamos atentos a isso, não o notamos. Ao contrário, quando nos propomos a realizar a respiração de maneira voluntária, percebemos e sentimos que o ar penetra em nosso corpo e que ela é responsável pela sobrevivência.
Segundo Sky (1990), em qualquer momento que estivermos, mesmo que levemente conscientes do movimento da respiração em nosso interior, estaremos mais conscientes como seres individuais e mais diretamente envolvidos nas funções integradas do corpo. Para ele, a respiração é, para o ser humano, o principal processo de transformação da energia em "forma física", pois a cada respiração ele junta e transforma seu corpo.
Para Leal (2000) o trabalho por meio da respiração voluntária deve considerar tanto a sua biomecânica, isto é, o conhecimento de todo trabalho muscular e orgânico, quanto às respostas decorrentes deste processo corporal integrado, principalmente no que se refere ao comportamento expressivo. A respiração amplia a consciência e estimula o conhecimento de novas possibilidades quando cada um é aprendiz de si mesmo.
Em nosso trabalho percebemos que a respiração tem sido um instrumento muito eficaz no desenvolvimento da expressividade do dançarino. Notamos que ela aumenta a capacidade de concentração, dilata os espaços articulares e expande todo o corpo, além de ser um instrumento que auxilia na definição das qualidades expressivas dos movimentos. Ao inspirarmos o ar, a sensação é de que a inalação do oxigênio foi realizada por todos os nossos poros em forma de raios; da mesma maneira, ao expirarmos o gás carbônico, este sai também em formas de raios que projetam nossa imagem e movimentos no espaço.
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