quarta-feira, 13 de junho de 2007

Verbetes para uma Enciclopédia Ritmica Brasileira: Giorgio Agamben

por Dulce Quental

Nos últimos tempos todos os caminhos têm me levado a Roma. Não porque caí nas graças de um tal de Rossi, um cara baixinho e estupidamente alegre, de passagem pelo Rio; nem tão pouco pela orgia culinária do "Pomodorino", com sua arquitetura interior inspirada em jardins italianos; mas porque conheci Giorgio Agamben. Desde Foucault não há pensador mais vigoroso. Da psicanálise à medicina social, passando pela política e cultura; todo pensamento contemporâneo parece está sendo revisto à luz das idéias de Agamben, um filósofo que poderia muito bem ter nascido na Grécia clássica, discípulo que é de Platão e Aristóteles.

É como compositora, vulgar escriba, no espaço dessa crônica virtual, ou em outros modos, falante, que tentarei transpor as idéias que agora em mim atravessam; para no momento não compor nada além de palavras sem nenhum papel. É desse lugar, as margens nem sempre plácidas do Rio, que buscarei a linha de fuga da resistência aonde o meu desejo se dá; pois se antes o pensamento era nebulosa, hoje, já produz provas de que o que se entranha em nós e se espalha em todas as esferas do corpo, afetividade, gens, psiquismo, imaginação, nada mais é do que a biopolitica do poder do Estado, do capital e da mídia; interiorizados.

Tudo em nós foi violado, invadido, colonizado por esses poderes. Depois que a indiferença se transformou em norma e o estado de exceção, em estado permanente de suspensão dos direitos básicos, antes chamados civilizados, a exclusão não se deu mais em espaços concentrados ou em campos de refugiados, mas se espalhou mundo afora; da África à Índia, de Nova Orleans à Ipanema, nos despindo, em grande parte, da vida qualificada. Vivendo de sub-empregos, desprotegidos pela lei e pelo Estado, sujeitos a toda sorte de violência e abandono, nos encontramos nus na nossa condição humana mais residual, condenados a viver uma morte em vida; pois assim se renovou a perversão do poder do soberano; deixar morrer aqueles para permitir que uns tantos outros vivam.

Mas quando parece que está tudo dominado e o desejo capturado, alguma coisa parece insinuar uma reviravolta. "A inteligência das pessoas, sua criatividade, sua afetividade se revela como a verdadeira fonte de riqueza; uma potência indomável que o capitalismo se apropria e faz render mas que não é gerada por ele e que poderia até prescindir dele, por se encontrar fora; nas pessoas, em todos, e em cada um". ( Peter Pál Pelbart) É essa força inventiva que hoje passamos a chamar de resistência; termo usado nos primórdios da psicanálise para nomear as dificuldades do paciente em verbalizar os seus recalques, mas que ganhou uma nova significação, depois da segunda guerra, através do movimento de reação à ocupação alemã. É no sentido positivo então que a palavra resistência hoje é usada, não como um obstáculo à fala, mas como um bem; um sistema de defesa do individuo contra a violência do biopoder. "O vivente possui o logos tolhendo e conservando nele a própria voz."

É na esfera então da linguagem que se constitui a resistência; no corpo, na internet e nas suas milhões de formas de expressão; das relações interpessoais no trabalho até os campos de batalha entre os sexos; qualquer forma de fuga que libere o desejo do capital e do poder de controle dos estados dominantes está valendo. Na internet acontece das trocas não estarem mediadas por nenhum poder normativo, mas pelas soberanias entre indivíduos; que podem assim realizar suas trocas simbólicas sem ter como pré-condição qualquer vinculo com o capital; não há ainda um comprometimento com o mercado formal na rede pois ela ainda não gera receita. Certamente esse é um momento único; sabemos que isso não vai durar muito; todo conteúdo de valor simbólico deverá um dia ganhar um valor de mercado. No momento, as regras e estratégias desse novo negócio ainda estão sendo estudadas. Criar o hábito no consumidor parece ser o primeiro passo na direção de abrir caminho para a criação do mercado que o biopoder precisa para a reprodução do seu capital. Para alguns, no entanto, é no espaço interno da criação artística que essa resistência se dará; no front entre a voz muda e a linguagem simbólica. Para tanto, é preciso que o criador não esteja comprometido com a autoridade de nenhum soberano além de si mesmo. Ser seu próprio dono; sua própria lei; sua própria voz, enfim, uma soberania; um Estado; uma força-potência-invenção indomável. Esse estado quase selvagem; no limite entre o ser e o desaparecer; entre o vivente e o falante; entre o vazio do sentido e o valor da obra, tem em si uma potência altamente ameaçadora para aqueles que, comprometidos com o biopoder, vêem como único valor existente, o poder do capital e os seus desdobramentos sobre o corpo; o consumo; a aparência, a imagem, a performance, a saúde e a longevidade.

De um modo, ou de outro, o desafio está lançado. Seja aqui, no campo virtual, seja nas fronteiras do real, entre o público e privado; "a voz muda que não quer calar"; "a porca que não quer atarraxar"; o rascunho que quer se fazer obra; cabe a nós nomear o que é mundo. A composição como um espaço de experimentação e resistência cultural às imposições do marqueting da industria da musica se faz mais do que nunca necessária. Através da fala que se faz canto, é possível identificar os pontos cegos do desejo interrompido pelo biopoder, e através dele, seguir a rota no sentido inverso ao da servidão voluntária e das tecnologias do eu. A doçura natural do viver segundo o bem não produzirá corpos dóceis nem falas mansas. Será o fim de musicas inócuas feitas sob medida para exércitos de idiotas.
(in www.screamyell.com.br . Este texto foi publicado com o título "Política, Resistência e Composição")

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